Salve-se quem Puder
Salve-se
quem Puder
Autor: Marcelo Zero
Publicação: sgeral@mst.org.br –
26-12-2018
Confesso
que tenho tido dificuldades em escrever sobre a armada Bolsoleone que tomou de
assalto o Brasil. Não por falta de assunto, mas pelo oposto.
O
festival generoso de estultice, ignorância, amadorismo, desorganização,
fanatismo e caos da armada do capitão dificulta a escolha de um só tema.
A
sensação é de um inevitável naufrágio, de um apocalipse não apenas econômico, social
e político, mas sobretudo civilizatório.
O
somatório trágico e descarado de fundamentalismo religioso, neofascismo
político, ultraneoliberalismo econômico e geopolítica subserviente não permite
previsões otimistas. Não se trata de “torcer contra” e solapar a
governabilidade, como fez, de forma acintosa, a direita nos governos do PT,
especialmente no segundo mandato de Dilma Rousseff. Trata-se apenas de
constatar fatos.
Ante
o quadro interno que se desenha, a única maneira de evitar o apocalipse seria a
configuração de um cenário externo extremamente positivo, que mitigasse, ao
menos parcialmente, a inevitável contração do mercado interno provocada pela
austeridade permanente, o aumento da desigualdade e da pobreza, o desemprego
estrutural, a redução dos direitos trabalhistas, a erosão do Estado de
Bem-Estar e a contração dos investimentos públicos.
Porém,
o cenário externo que se configura para os próximos anos está longe de ser
róseo. Ao contrário, prevê-se tempo sombrio.
Segundo
o último relatório do FMI (outubro de 2017), haverá uma significativa
desaceleração do crescimento do comércio mundial de 5,2% (2017) para 4,2%, em
2018 e 4%, em 2019. O principal fator por trás dessa diminuição da dinâmica do
comércio internacional seria a guerra comercial iniciada por Trump contra a
China e outros países, guerra à qual o governo Bolsonaro pretende aderir,
somando-se aos EUA contra os interesses objetivos do Brasil.
Ainda
segundo o FMI, que previa anteriormente uma elevação do crescimento da economia
mundial de 3,7%, em 2017, para 3,9%, em 2018 e 2019, haverá estagnação do
crescimento em 3,7%.
Mas
há outras instâncias que apontam para um quadro bem mais pessimista. A OCDE,
por exemplo, prevê desaceleração do crescimento da economia mundial para 3,5%,
em 2019. Na realidade, o chamado “mercado”, como demonstram as sucessivas quedas
nas bolsas, nos preços dos ativos financeiros e de algumas commodities, já está
com um ânimo bastante nervoso e apreensivo. Há uma fuga dos papéis de longo
prazo para os de curto prazo. Há também fuga para os títulos do Tesouro
americano, que não remuneram nada, mas são seguros.
Por
trás desse nervosismo, existe forte preocupação com o grande crescimento das
dívidas, tanto públicas quanto privadas.
Segundo
o FMI, a dívida das famílias norte-americanas, é hoje US$ 837 bilhões maior que
a de 2008, ano em que as finanças mundiais entraram em colapso. As dívidas
totais, ainda de acordo com o FMI, ascendiam a US$ 164 trilhões, em 2016, o que
equivale a 225% do PIB global.
Embora
os bancos hoje tenham um melhor sistema de proteção contra riscos e ativos
tóxicos, cerca de 16% das empresas nos EUA estão em situação de insolvência
técnica.
Há
um claro quadro de insuficiência de demanda.
Na
falta de efetivo dinamismo da economia real, a propulsão é feita por mecanismos
financeiros que são, no longo prazo, insustentáveis. Como bem destacou o grande
economista Luiz Gonzaga Belluzzo em artigo recente nos últimos anos, as Bolsas dos EUA e os rendimentos nanicos dos bônus
do Tesouro fumegam os vapores que, mais uma vez, sopraram às alturas os preços
dos ativos. Nas horas vagas, e nas outras também, as empresas se entregam à
bulha da recompra das próprias ações e mandam bala na distribuição de
dividendos com a grana do Federal Reserve.
Assim,
as bolsas se mantiveram em alta graças a um mecanismo de recompra de ações (buy
back) propiciado pelo crédito barato fornecido pelo Federal Reserve. Quase US$
4,5 trilhões foram gastos com esse mecanismo desde o início da crise até 2015.
O problema é que o “quantitative easing” e o crédito fácil que permitiam
mecanismos como esse estão acabando. As
taxas de juros estão em ascensão, tanto na Europa quanto nos EUA. Em outubro,
os juros dos títulos do tesouro norte-americano atingiram seu maior patamar em
sete anos: 3,25%.
Para
nós, acostumados a uma das maiores taxas do mundo, é ridículo, mas para o mercado
financeiro dos EUA, é fenômeno que provoca extrema apreensão.
Por
tudo isso, o tradicional e prestigiado banco de investimentos J.P. Morgan,
assim como vários economistas independentes, preveem que, já em 2020, haverá
uma crise semelhante à de 2008, a qual traria “a maior tensão social dos
últimos 50 anos”.
Bem,
previsões sobre crises, ou sobre a continuidade das bonanças, são muito
incertas, como ficou demonstrado na débâcle
de 2008. Mas o ponto aqui é que ninguém está prevendo um quadro positivo para
os próximos 2 anos, na economia mundial.
Portanto,
o cenário mais provável é o de, no máximo, crescimento medíocre, tanto da
economia mundial quanto do comércio mundial, somado ao aumento das taxas de
juros nas economias centrais, a um aperto financeiro global e a preços cadentes
das commodities.
Esse
cenário externo ruim encontrará uma economia brasileira sujeita à austeridade
permanente, sem investimentos públicos significativos, e com crescente
desigualdade e pobreza. Além disso, a economia nacional não disporá mais de
importantes mecanismos públicos de estímulo, pois a cadeia de petróleo e gás
está sendo totalmente desmontada e o BNDES está se tornando um banco de
dimensões modestas.
Não
bastasse, o setor privado interno não deverá prover grandes estímulos para a
retomada do crescimento sustentado, pois as empresas estão, em geral, com nível
alto de endividamento Com efeito, os estudos do economista Felipe Rezende
mostram que famílias e empresas saíram de um endividamento de US$ 200 bilhões
em 2002 para US$ 1,5 trilhão em 2015. A explosão das taxas de juros em período
recente, só agora revertida, sufocou financeiramente muitas empresas. Os
spreads bancários em níveis demenciais também não contribuem para aliviar o
quadro financeiro muito difícil.
Ante
tal quadro, a estratégia do ultraneoliberal “Posto Ipiranga” deverá ser a de vender
tudo (petróleo, minérios, Petrobrás, Eletrobrás, bancos públicos, terras, etc.)
a preços módicos e abrir a economia de qualquer forma, de modo a atrair
investimentos externos. Ademais, preveem-se cortes draconianos nos gastos
públicos, uma reforma da Previdência criminosa à la Pinochet, uma ofensiva em larga escala contra os servidores
públicos e novos ataques aos direitos dos trabalhadores.
Tal
estratégia ultraneoliberal, tal como aconteceu na década de 1990, fracassará.
Poderemos ter até, com sorte, curtos e medíocres voos de galinha, mas não
teremos crescimento sustentado e, muito menos, desenvolvimento real com
distribuição de renda e eliminação da pobreza.
Somar-se-á
ao desastre econômico e social o desastre geopolítico, que nos alinha à
demência virulenta de Trump e nos afasta do Mercosul, dos BRICS, dos países
árabes, da África e, de um modo geral, de todo o mundo civilizado.
Esta
se armando, dessa forma, uma tempestade perfeita de barbárie.
Uma
tempestade feita de ignorância, autoritarismo, intolerância, amadorismo, ultraneoliberalismo,
injustiça, destruição de direitos, subserviência geopolítica e, sobretudo,
fanatismo.
Diderot
dizia que do fanatismo à barbárie há somente um passo.
Esse
passo será dado em 1º de janeiro de 2019. SALVE-SE QUEM PUDER.
Comentários
Postar um comentário